Os benefícios da pesca para a saúde física e mental
- Everton Pires
- há 3 horas
- 7 min de leitura
Você já parou para observar como a sua mente parece funcionar de forma diferente depois de passar algumas horas pescando?
Mesmo quando o peixe não aparece, é muito comum retornar para casa mais tranquilo, com a cabeça leve e aquela sensação de que o dia valeu a pena. Para muitos pescadores, isso sempre pareceu algo natural. Não era preciso nenhum estudo científico para saber que estar perto da água, concentrado na pescaria e afastado da rotina fazia bem.
Mas será que a pesca realmente pode trazer benefícios para a saúde física e mental do ser humano?
Nos últimos anos, pesquisadores começaram a estudar com mais atenção a relação entre a pesca recreativa, o contato com a natureza, o estresse e o bem-estar. Embora ainda existam muitas perguntas a serem respondidas, as evidências disponíveis ajudam a explicar muitas das sensações que nós, pescadores, percebemos na prática.
A pesca nos afasta temporariamente da rotina
Vivemos cotidianamente cercados por compromissos, notificações, mensagens, trânsito e problemas que precisam ser resolvidos.
Durante uma pescaria, sabemos que grande parte dessa agitação fica para trás.
A atenção passa a se concentrar em outras coisas: a maré, o vento, a movimentação da água, o posicionamento da embarcação, o arremesso e qualquer sinal de atividade do peixe.
Essa mudança de ambiente e de foco pode consequentemente proporcionar um período importante de descanso mental.
Uma publicação da Fisheries Research and Development Corporation, da Austrália, destaca que atividades realizadas em ambientes naturais podem contribuir para a recuperação da atenção depois de períodos de trabalho. A instituição também menciona que programas bem estruturados ao ar livre, alguns deles baseados na pesca recreativa, vêm sendo utilizados no apoio a pessoas em recuperação de traumas e problemas de saúde mental.
É importante lembrar que isso não significa que uma pescaria substitua acompanhamento médico ou psicológico. Entretanto, ajuda a compreender por que o contato com a água e com a natureza pode fazer parte de uma rotina mais saudável.
Pescar exige concentração no momento presente
Durante uma pescaria, principalmente no caso da pesca com mosca, não há muito espaço para ficar completamente distraído.
O pescador precisa estar presente e observar a água, perceber mudanças no ambiente e coordenar os movimentos. É necessário acompanhar o trabalho da isca, corrigir o arremesso, controlar a linha e estar preparado para a tomada do peixe, que sabemos que pode ocorrer a qualquer momento desde que a isca esteja na água.
Na prática, essa atenção voltada ao que está acontecendo naquele momento se aproxima a alguns princípios utilizados em atividades de relaxamento e atenção consciente.
A publicação da Harvard Medical School sobre a pesca com mosca relaciona a modalidade ao que o médico Herbert Benson chamou de resposta de relaxamento. O ambiente natural, o afastamento das preocupações cotidianas e a repetição ritmada dos arremessos podem ajudar a interromper, ainda que temporariamente, o fluxo constante de pensamentos e tensões.
Para quem pratica Fly Fishing ou a pesca com mosca, isso é fácil de entender.
O movimento repetitivo do arremesso, quando realizado de forma tranquila, exige concentração e ritmo. Você precisa sentir a vara puxar, controlar a linha e executar cada etapa no momento correto.
Quando estamos realmente envolvidos nessa atividade, a atenção deixa de permanecer nos problemas externos e passa a acompanhar aquilo que está acontecendo diante de nós.
O contato com a água e a natureza
Grande parte das pescarias acontece em ambientes naturais ou próximos deles. Mesmo em uma pescaria urbana, como a pesca de tarpons realizada nos rios e estuários do Recife, ainda estamos cercados por água, aves, manguezais, variações de maré e muitos outros elementos naturais.
Não é necessário navegar até uma região completamente isolada para perceber essa diferença.
Ao sair do ambiente fechado e entrar em contato com o rio, o mar ou uma represa, passamos a observar sons, movimentos e condições que normalmente ignoramos ou que passam despercebidos durante a rotina.
Estudos sobre atividades ao ar livre indicam que o contato com ambientes naturais está associado à recuperação da atenção e a benefícios para o bem-estar. Ao mesmo tempo, pesquisadores alertam que ainda existem relativamente poucos estudos capazes de demonstrar exatamente quando, como e para quem a pesca recreativa produz esses benefícios.
Portanto, é importante não transformar a pesca em uma solução milagrosa.
O que podemos afirmar é que ela reúne diversos elementos considerados positivos: contato com a natureza, afastamento temporário das telas, concentração, movimento físico e interação social.
A relação entre pesca, estresse e bem-estar
Um estudo publicado em 2022 analisou associações entre pesca recreativa marinha, estresse percebido, qualidade do sono e consumo de pescado. A pesquisa encontrou relações positivas entre a participação na pesca e alguns indicadores de saúde e bem-estar, embora estudos observacionais desse tipo não sejam suficientes para provar que a pesca foi, sozinha, a causa dos resultados encontrados.
Essa diferença é importante. Uma pessoa que pesca regularmente também pode praticar mais atividades ao ar livre, manter maior contato social ou possuir uma rotina diferente daquela que não pesca. Todos esses fatores podem influenciar os resultados.
Mesmo assim, os dados reforçam algo que muitos pescadores relatam: a pescaria pode representar uma pausa saudável dentro de uma vida marcada por preocupações, responsabilidades e excesso de estímulos.
O material utilizado como base para este artigo também relaciona a pesca à redução do estresse percebido, da ansiedade e à criação de estados semelhantes aos obtidos em práticas meditativas.
A pesca também movimenta o corpo
É comum que muitas pessoas imaginam que pescar significa permanecer sentado durante várias horas esperando o peixe aparecer.
Isso pode acontecer em algumas modalidades, mas está longe de representar toda a realidade da pesca esportiva.
Dependendo do ambiente e da técnica utilizada, uma pescaria pode envolver:
caminhar pela margem;
entrar e sair da embarcação;
manter o equilíbrio com o barco em movimento;
remar;
atravessar áreas rasas;
arremessar repetidamente;
controlar a linha;
trabalhar o peixe;
levantar e organizar equipamentos.
Na pesca com mosca, o arremesso utiliza braços, ombros, costas e parte do tronco. Quando pescamos embarcados, o corpo também trabalha constantemente para manter a postura e o equilíbrio.
Em pescarias costeiras, rios ou estuários, o nível de esforço pode variar bastante de acordo com a duração da atividade, o clima, a correnteza e o tamanho do peixe.
A Ontario Parks descreve a pesca como uma atividade física de baixo impacto capaz de movimentar braços, ombros, costas, pernas e musculatura central. A intensidade, evidentemente, depende da modalidade e das condições da pescaria.
É claro que não podemos comparar uma pescaria tranquila a um treinamento esportivo intenso. Ainda assim, permanecer ativo ao ar livre é muito diferente de passar o mesmo período sentado diante de uma tela.
Resolver problemas faz parte de toda pescaria
A pesca nunca é uma atividade completamente previsível. Uma técnica que funcionou ontem pode não funcionar hoje. O peixe pode mudar de comportamento ou de profundidade, a água pode ficar mais turva, a maré pode atrasar a atividade e o vento pode dificultar o arremesso.
O pescador precisa interpretar essas mudanças e tomar decisões. Talvez seja necessário trocar a isca, mudar o tamanho do líder, alterar a velocidade do recolhimento ou buscar outro ponto. Em alguns casos, uma mudança de poucos metros no posicionamento da embarcação já faz grande diferença, mas é preciso uma decisão.
Essa necessidade constante de observar, testar e corrigir transforma a pesca em uma atividade que exige raciocínio prático.
A Ontario Parks também relaciona esses pequenos desafios ao desenvolvimento de habilidades de resolução de problemas, pensamento analítico e criatividade.
Na minha experiência como guia, percebo isso com muita frequência.
O pescador não está apenas repetindo movimentos. Ele está tentando compreender o ambiente e antecipar o comportamento de um animal selvagem que nem sempre segue o padrão esperado.
É justamente essa imprevisibilidade que torna a pesca tão fascinante e desafiadora.
Paciência, persistência e controle emocional
Nem toda pescaria produz capturas rápidas ou resultados garantidos.
Em alguns dias, o peixe está ativo e responde logo nos primeiros arremessos. Em outros, é preciso trabalhar durante várias horas até surgir uma oportunidade.
Também existem aqueles momentos em que o peixe acompanha a isca, recusa o ataque ou escapa depois de ser fisgado, comportamento muito comum inclusive na pescaria de tarpons em Recife.
Tudo isso exige paciência, perseverança e controle emocional.
Com o tempo, o pescador aprende que não pode controlar todos os elementos da pescaria.
Ele pode preparar o equipamento, escolher a técnica mais adequada e fazer um bom arremesso, mas a decisão final ainda pertence ao peixe. Essa dinâmica ensina a lidar com expectativas e frustrações.
Para crianças e jovens, a pesca também pode ser uma oportunidade de desenvolver paciência, coordenação e habilidades motoras finas. Amarrar um nó, controlar a linha e realizar um arremesso são tarefas que exigem atenção e precisão.
A importância da convivência
Apesar de algumas pessoas preferirem pescar sozinhas, a pesca também pode ser uma atividade profundamente social. Muitas amizades começam ou se fortalecem dentro de uma embarcação.
Durante a pescaria, existe tempo para conversar, compartilhar experiências e aprender com outras pessoas. Pais pescam com filhos, amigos organizam viagens e pescadores de diferentes lugares trocam informações sobre técnicas e espécies.
No meu caso, grande parte da minha trajetória na pesca foi construída por meio dessas conexões. Desde os primeiros passeios com meus pais até as experiências com outros pescadores e guias profissionais, muitas oportunidades surgiram porque havia alguém disposto a compartilhar um conhecimento, técnica ou uma pescaria.
Em um mundo onde boa parte da comunicação acontece através de telas, passar algumas horas em contato direto com outras pessoas também pode fazer diferença no bem-estar social.
É preciso pescar para experimentar esses benefícios?
Não existe uma única modalidade considerada ideal para o bem-estar.
Algumas pessoas preferem pescar de barranco em um pequeno lago. Outras gostam de caiaque, pesca embarcada, praia, água doce ou mar aberto.
Há quem encontre tranquilidade no movimento repetitivo do Fly Fishing. Outros preferem a expectativa de trabalhar uma isca artificial ou esperar um peixe maior atacar uma isca natural. Cada modalidade proporciona experiências diferentes.
A própria instituição australiana responsável por estudar os benefícios da pesca reconhece que existem centenas ou milhares de formas de pescar. Consequentemente, diferentes modalidades podem produzir efeitos distintos sobre a saúde e o bem-estar.
O mais importante é que a atividade seja realizada de forma segura, responsável e adequada às condições de cada pessoa.
A pesca não é uma cura, mas pode fazer parte de uma vida saudável
É importante manter equilíbrio ao falar sobre os benefícios da pesca. Ela não substitui tratamento médico, acompanhamento psicológico, exercícios regulares ou outros cuidados necessários para a saúde.
Também não podemos afirmar que toda pessoa terá a mesma experiência. Uma pescaria mal planejada, realizada em condições perigosas ou cercada por conflitos pode produzir justamente o efeito contrário.
Entretanto, quando praticada com segurança e responsabilidade, a pesca reúne muitos elementos positivos.
Ela nos coloca em movimento, aproxima-nos da natureza, exige concentração e nos afasta temporariamente da agitação cotidiana. Também cria oportunidades para aprender, conviver e construir memórias.
Para nós, pescadores, talvez a ciência esteja apenas começando a explicar algo que já sentimos há bastante tempo.
Muitas vezes, o peixe é o objetivo que nos leva até a água. Mas nem sempre é o único benefício que trazemos de volta para casa.
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